Editorial: Arte das Musas
Colección: Museu dos sons perdidos ; 5
Número de páginas: 120 págs. 18.0 x 12.0 cm
Fecha de edición: 01-11-2025
EAN: 9789893632222
ISBN: 978-989-36322-2-2
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Precio (IVA incluído): 20,28 €
Há dias em que o silêncio pesa mais, uma espécie particular de densidade em vez de ausência de som. O ar parece guardar qualquer coisa, e nessas horas suspensas tudo parece ter corpo: o vento, o pó, até o espaço entre os objectos. Há uma espécie de murmúrio nesta densidade que não se ouve senão com muita atenção. Uma espécie de murmúrio que não sabemos de onde vem, uma vibração. É aí que o dia começa — antes da luz.
O som parece que não vem de fora para dentro. Parece de dentro — não é o ouvido que escuta mas o corpo inteiro. Um som mínimo atravessa-me. Quase não reparava. Às vezes penso que não são ecos, mas partidas.
Ando a tentar perceber o que fica depois do som passar. Quando passa, o que fica? Fica uma vibração no ar, quase imperceptível, que demora a desaparecer? Parece que fica, sim, como se o som deixasse um rasto. Uma espécie de linha. Não se vê, não se mede, mas há qualquer coisa que muda na matéria. O ar parece mais espesso, mais usado.
Gosto de pensar que o mundo guarda tudo: cada pedra, cada muro, cada folha, o chão onde caminho e todos os passos, todas as vozes que já não pertencem. Imagino que as árvores sabem de cor o som de todos os ventos de todos os tempos e que o repetem sem saber.
Habito um lugar onde o som viaja devagar, o vento tem direcção, o silêncio tem peso e a noite, um corpo que respira. Os bichos calam-se cedo — ou nunca se calam, depende do dia ou da atenção. Muitas vezes acordo antes do amanhecer, e penso que este é o verdadeiro início do dia: o instante em que tudo está suspenso.
